“Me encara, de frente. É que você nunca quis ver”
Caetano Veloso
Esta resenha traz alguns apontamentos do, e sobre o texto Narcisismo, Uma Introdução de Freud, 1914; propondo possibilidades de esclarecer ao público não técnico, que conceitos da psicanálise quando tomados de forma outra que não dentro da proposta psicanalítica, podem levar a enganos de interpretação e tratamento. O termo Narcisismo, cunhado em 1899 por Paul Nache e que se tornou famoso com Freud em 1914, ganhou popularidade, desdobramentos e, por este motivo e da mesma forma, não raramente, pode fomentar preconceitos e distorções.
Sobre o Narcisismo: Uma introdução é um livro dividido em três partes e considerado um texto difícil, pelo próprio autor. Muitas das observações e conceitos que são nele apresentados serão desenvolvidos, mais bem arranjados e expandidos ao longo de sua obra e também por outros autores.
Já nos primeiros parágrafos um paradigma de época foi quebrado: O de que Narcisismo fosse exclusivo do estudo da Perversão, como apresentou Paul Nache em 1899, e que trouxe o mito de Narciso para ilustrar a atitude de uma pessoa que trata seu próprio corpo “da mesma forma pela qual o corpo de um objeto sexual é comumente tratado – que o contempla, vale dizer, o afaga e o acaricia até obter satisfação completa através dessas atividades”(FREUD, 1914/1996, p.81). Nache estudava o comportamento dos homossexuais, até então ilegal, e considerado uma doença. Vale lembrar que a homossexualidade foi retirada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentas (DSM) somente em 1987.
Freud propõe que o Narcisismo “está inserido no curso regular do desenvolvimento sexual humano” (Ibid.), desvinculando-o da exclusividade dos estudos dos homossexuais, o que equivale dizer que até certo ponto – em uma parte de nós-, todos somos narcisistas. Com relação à psiquiatria, a psicanálise considera este um caminho, um curso regular, uma fase de maturação psíquica que não concerne um tratamento puramente comportamental ou químico e mais, como veremos adiante, ultrapassado o narcisismo primário que o bebê vive, o narcisismo secundário é pertencente ao eu/ego. É preciso reforçar também que, Perversão para a psicanálise não é uma maldade intrínseca de assassinos em série, como a cinematografia nos incentiva julgar, ou, uma resposta simples para a raiva não explicada. Perversão é a conversão da libido (energia) para uma zona erógena em detrimento de outras. Freud ainda levanta hipóteses que não chega a esclarecer, e sugere que “algo seja adicionado ao autoerotismo – uma nova ação psíquica – a fim de provocar o narcisismo”, e na sequência, afirma que “o ego tem que ser desenvolvido”. (Id., p.84).
O autoerotismo é observável no prazer que o bebê sente com seu próprio corpo, seja na fase oral, anal ou fálica – zonas erógenas (e a fase genital na puberdade). Quanto ao bebê, ele descobre a si mesmo. Ele sente prazer em seu corpo, chupando sua mão, mordendo seus pés, sentindo prazer nas dobrinhas e barriguinha, etc., e parte destas descobertas ele o faz sozinho, por prazer e investimento psíquico (catexia) em si, como objeto de satisfação. Lacan irá introduzir no seminário XI, novos conceitos de zonas erógenas inclusive simbólicas, sendo elas a voz – Pulsão Invocante; o olhar – Pulsão Escópica; e a Pele e o Toque, que se pode observar de forma potente na relação mãe/bebê.
O narcisismo seria “o complemento libidinal do egoísmo do instinto de preservação, que em certa medida, pode justificavelmente ser atribuído a toda criatura viva” (Ibid, p. 81), o primário. O bebê sente necessidade de se alimentar pela primeira vez sem o cordão umbilical, sente o ar entrando e saindo exercitando os pulmões, sente seus intestinos funcionando, sente frio ou calor e manifesta todas as suas necessidades sem nenhum filtro ou zelo social, chorando, gritando e esperneando em qualquer lugar ou hora. O bebê deseja apenas ser atendido. Ali, não há o ego construído. O narcisismo é primeiro. Ele também se acalma chupando suas mãos e mordendo seus pés, ele também sente alívio ao fazer cocô. Ele manifesta suas necessidades e suas satisfações sem nenhuma censura, como Freud propôs, “sua majestade o bebê”. Para sobreviver é parafraseado pelos cuidados incessantes dos cuidadores (mãe). Somado a isso, ele recebe de volta as intenções afetivas que o idealizam como quem poderá realizar todos os sonhos e desejos não realizados pelos próprios pais. Comumente verbalizado, este é o retorno, o eco, o que para a psicanálise, é a projeção narcísica dos pais sobre a criança e é o que completa o movimento psíquico.
Esse amor de troca de necessidades profundas (o desejo não realizado dos pais e o prazer inicial de si sobre os impulsos autoeróticos) formam a empuxo necessário para a formação do ideal do eu, o que valeria dizer que nos formamos muito com o desejo do outro em nós, ou ainda melhor, da ambivalência entre este desejo, o ideal do eu, e o eu ideal, nossa satisfação pura. Assim, construímos o eu.