
“Viver pacientemente a Impaciência”
Paulo Freire
Neste pequeno texto resumo, tenho a intenção de relembrar que a Psicologia, enquanto ciência social, está em constante mutação, e que é assim que se faz ciência: entrelaçando-se com outros saberes, propondo alternativas, inquieta e desejante. Nenhuma ciência está completa! Nem tudo está definido. Há sempre algo ou alguém transformando e sendo parte da transformação, implicado. É tempo de incluir.
No cenário da crise sanitária (em função do coronavírus) e das políticas brasileiras, do distanciamento físico e microfascismos cotidianos, neste texto, revisito a proposta das Teorias e Técnicas Operativas de Pichon-Rivière, reconhecendo sua emergência no contexto sociopolítico latino-americano. O contexto é de violências políticas e autoritarismos, e as técnicas operativas demonstram sua pertinência como práxis da psicossociologia.
Com base na revisão de literatura, apresentamos as principais formulações conceituais e metodológicas da Teoria e Técnica de Grupos Operativos e, com fragmentos de uma recente experiência de grupo operativo com adolescentes imigrantes ou filhos de imigrantes na cidade de São Paulo, reafirmamos a potência grupal como produção do comum na heterogeneidade e como afirmação do coletivo em relação ao individualismo. É assim que Marta Maria Okamoto, Emilia Estivalet e Maria Cristina Gonçalves Vicentim apresentam sua tese.
O texto faz críticas ao modelo sanitário e moral de governo brasileiro no tempo da morte de 460 mil pessoas em maio de 2021 e descreve os novos modelos de trabalho, como home office e reuniões de pessoas através das telas, sob o viés do reforço do individualismo, do estresse, do medo, impossibilidades e adoecimentos subjacentes.
As autoras nos trazem perguntas e reflexões: “Neste cenário, é possível falarmos do trabalho grupal reafirmando sua potência? Somos desafiados à experimentação de novas formas de organização, de auto-organização, de sociabilidade, de dissidência e de sustentação/produção do comum.” Relembram e comparam as performances latino-americanas de trabalho em grupo frente às políticas e ditaduras em diversos países sul-americanos, principalmente nos anos 70, e retomam Pichón-Rivière do seguinte ponto de vista:
“Estranho ponto de encruzilhada” e “orquestração peculiar” de diversas orientações (freudo-marxismo; materialismo histórico; escolas psicanalíticas, em particular as inglesas; escolas norte-americanas, mas também o trabalho dos filósofos Georges Politzer, Gaston Bachelard, dentre outros) que reuniu Pichon-Rivière e seus discípulos: José Bleger, Fernando Ulloa, Armando Bauleo, Gregorio Baremblitt (Baremblitt, 1986, p.14).”
Naquele tempo, combatiam-se as hierarquias médico-hospitalares, o autoritarismo psiquiátrico manicomial, a rígida hierarquia das Associações de Psicanálise, a verticalidade nos espaços educativos, etc. Naquele período na Argentina, o destaque deve ser dado à experiência da fundação do grupo Plataforma, composto por 11 psicanalistas, que se formou como dissidência da Associação Psicanalítica Argentina. Tudo isso e as ideias de Pichón resultaram em seu afastamento da PIA – Associação Internacional de Psicanálise, na época dirigida por Melanie Klein. O intuito deste artigo é apresentar as inquietações da práxis de Pichon-Rivière, mostrando como estas seguem atuais.
Como viver em um ambiente adverso, hostil e violento, mantendo-se criativo e plural, aberto ao devir de novas aprendizagens? Trago parte do texto como uma pergunta e escrevo como o texto propõe a resposta: “Nesse movimento, é possível deslocar o individual e próprio para o coletivo, construindo um comum que difere do homogêneo, pois preserva singularidades e grupalidades de forma não excludente.” Ele pensou o grupo como produtor e produto de seu tempo, local privilegiado de encontro com o outro, onde é possível, por meio do olhar do outro, deslocar-se de posições dilemáticas (Pichon-Rivière, 2005).
Como? É a partir das trocas de experiências, do falar de si e escutar o outro que se podem tecer elementos sobre as redes em que se está inserido, assim como tecer outras redes. Podemos dizer que, nos Grupos Operativos, a experiência de estar em grupo é radicalmente perder o que é próprio e singular para se entregar ao coletivo, ao mesmo tempo em que é impossível sair da experiência grupal sem que apareça o que é mais próprio e único de cada um.
No texto, as autoras formulam sua admiração franca: ele acreditou na força dos coletivos e fez sua obra calcada na necessária e inevitável articulação entre o sujeito e o social. Esse “entre” significa que não basta que um corpo viva para que o sujeito exista; é necessário que o corpo do sujeito, esse batimento biológico, encontre consonância no laço social com o outro. Partindo das relações sociais que foram internalizadas, configura-se o que Pichon-Rivière chamará de relações ecológicas, estruturas vinculares que incluem o sujeito, o objeto e suas mútuas inter-relações. A Psicologia clássica, que até então se praticava, dicotomizava indivíduo e sociedade, estudava-o isoladamente, o que fazia da Psicologia uma ciência abstrata e apartada de seu meio (Pichon-Rivière, 1988).