“Alguma coisa acontece no meu coração”
Caetano Veloso
Retomemos agora ao mito de Narciso.
Quando penetramos no mito de Narciso, encontramos o jovem bonito que recebeu uma sina divina de viver enquanto não se visse ou não se conhecesse. Um dia, o jovem com sede, vai beber água numa nascente translúcida e vê sua imagem refletida. Enamorado de si mesmo, fica estagnado a admirar-se. Alguns dizem que morreu de inanição, outros dizem que para abraçar-se, afundou-se no lago e morreu afogado. Em ambas as narrativas do mito, Narciso ficou entorpecido com sua própria imagem. Este entorpecimento, cujo significado se encontra na etimologia da palavra Narckê, que é a mesma raiz da palavra narcótico faz com que Narciso, ao se conhecer, morra. Neste mito há uma outra personagem importante que se chama Eco. Eco é uma ninfa que recebe uma sina divina de não poder mais falar o que deseja, ficando restrita a repetir apenas o final das palavras que os outros dizem. O encontro e enamoramento de Eco por Narciso, também pode ser desmembrado no que diz respeito a importância da relação entre o eu e o outro no Narcisismo. Narciso caminhando pelo bosque percebe movimento na mata e diz: – Quem está aí? e Eco responde: Está aí. Narciso foge da ninfa.
O narcisismo secundário exige uma plateia, um movimento psíquico que o alimente. Assim, energia psíquica de autossatisfação – Libido do eu e a energia psíquica das relações com o outro, o objeto -Libido Objetal, Freud observou, que se tornam energias ambivalentes. Se investimos em uma, esvaziamos outra. É daqui que ele parte para o texto III, onde desenvolverá um pouco mais sobre o ideal do eu e o eu ideal.
A obra é também conhecida por ser uma resposta de Freud à Jung e Adler que haviam construído outras maneiras de utilizar o conceito narcisismo que não, as teorias sexuais. Jung caminhou para o eu coletivo (collective unconscious), o que apontava que o ego era apenas uma parte da psique humana, desenvolvendo uma ciência analítica com o conceito de arquétipos, e neste estudo, o narcisismo patológico poderia representar um arquétipo. Já Adler destaca o narcisismo do conceito psicossexual e faz apontamentos na dimensão social propondo que o narcisismo seja um desejo de autossuficiência e independência que poderia ser redirecionado para o bem o comum, por exemplo.
Freud neste momento estava construindo a Segunda Tópica, que introduzirá os conceitos de Ego, Id e Superego em 1923 e o estudo e texto do narcisismo contribuirá nesta construção sendo revisto em Toteme tabude 1913, Além do Princípio do Prazer, 1920 e Os Instintos e suas Vicissitudes, 1923, por exemplo sendo que as datas de publicações dizem respeito a estudos e textos realizados simultaneamente.
O texto III, inicia deixando para o futuro três importantes indagações que Freud já tinha consigo: a) os distúrbios possíveis do narcisismo; b) as reações de proteção à estes distúrbios e c) ao que se sujeita ao se proteger, e segue diretamente para “a importância do complexo de castração em conexão com o efeito da coerção inicial da atividade sexual” (Id, p.99) concluindo sobre a formação do narcisismo secundário que: – “A diferença entre um neurótico e uma pessoa normal é que o primeiro fixou um ideal de si mesmo, pelo qual mede seu ego real”- fixação que pode ocorrer durante o complexo de édipo,“ao passo que o outro não formou qualquer ideal desse tipo”- teria ultrapassado esta mesma fase, sem fixar-se,e que,“ para o ego, a formação de um ideal seria o fator condicionante da repressão”que por sua vez, é um processo inconsciente. Sendo assim, a pessoa reprime seus ideais de si (ideal do eu) e os sustenta como alvos do amor de si mesmo, faz isso inconscientemente, mantendo sua libido conectada à sua satisfação. Este complexo manejo do sistema Consciente/Inconsciente, resulta na vida adulta, diante de frustrações e autocríticas, numa projeção do eu ideal.
Isto posto, vale voltar a um importante sumário que Freud nos deixa no final do texto II, dizendo que existe duas formas de amar, sendo uma em (1) conformidade com o tipo narcisista e outra em (2) conformidade com o tipo anaclítico ( de ligação) e em nenhuma delas, amamos o outro, senão, que amamos: (1.a) a nós mesmos, (1.b) o que fomos, (1.c) o que gostaríamos de ser, (1.d) uma parte de nosso passado, ou os substitutos de nossos cuidadores, que (2.a) nos alimentaram e (2.b) nos protegeram.
Este entroncado texto é também intrincado e traz em si, várias tónicas como a do amor, do ciúme, da autoestima, da sublimação, da impotência, da hipocondria, da ansiedade social, entre outros tantos. Antes de encerrarmos esta resenha, tomaremos um último tema, para lançamento de futuras reflexões, assim como Freud o fez, que é o surgimento do Superego. Ele diz:
Não nos surpreenderíamos se encontrássemos um agente psíquico especial que realizasse a tarefa de assegurar satisfação narcisista proveniente do ideal do ego, e que, com essa finalidade em vista, observasse constantemente o ego real, medindo-o por aquele ideal. Admitindo-se que esse agente de fato exista, de forma alguma seria possível chegar a ele como se fosse uma descoberta – podemos tão-somente reconhecê-lo, pois podemos supor que aquilo que chamamos de nossa “consciência” possui as características exigidas. (Freud, 1914/1996, p.102)
Essa formação psíquica que ele observou em seus pacientes e contra a qual os pacientes se queixavam e se rebelavam Freud confirma: – está presente em nossa vida normal. Esta consciência que vigia é a mesma que induziu a formação do ideal do eu, e “sua nascente é a influência crítica de seus pais – transmitida à ele por intermédio da voz” (Ibid., p.102) e depois quem o educou, seu ambiente, cultura e influências, à que ele se refere como coorte – emprestando o termo da estatística.
Desta forma, estudar e apropriar-se do conceito de Narcisismo conforme apresentado na psicanálise suas formações e destinos, é fundamental para evitar o uso indeliberado do termo e evitar preconceitos, más formações conceituais e principalmente pré-julgamento clínico em massa, imprimindo no sujeito, recriminações e intersecção da lei, tecnicamente reforçadores da fixação, sem haver considerado o ambiente.
Atualmente, o termo Narcisista para se referir a uma pessoa, estigmatiza e rotula socialmente. No DSM 5 TR, o Transtorno de Personalidade Narcisista, classificado pelo código 301.81 (F60.81) define suas características como um padrão persistente de:
Grandiosidade, Necessidade de admiração e Falta de empatia. Frequentemente, têm uma autoimagem inflada e buscam constantemente validação externa. Elas podem desvalorizar outras pessoas para manter uma sensação de superioridade.
No verbete do dicionário online Priberam, Narcisismo é a qualidade de quem gosta ou admira exageradamente a sua própria imagem.
Embora traços de narcisismo, no convívio social, sejam agentes de muitas dificuldades nas relações, é preciso considerar que estes traços quando observados na clínica psicanalítica, podem surgir em seus opostos como baixa autoestima, necessidade de aprovação e busca de amor e reconhecimento, contrário ao que se diz no senso comum, e ainda por severas autocensuras e exigências do superego, ou seja, um quadro clínico de conflito psíquico e causador de sofrimento. O desequilíbrio nas escolhas entre o atendimento de si e o atendimento das demandas sociais são uma exigência psíquica para existir no mundo e as escolhas narcisistas que desequilibram o sistema, são escolhas inconscientes. A psicanálise compreende que a pessoa é responsável pelo seu inconsciente também, não se trata de isenção de implicação de si no ato, entretanto, propõe a análise como forma do sujeito implicar-se.
As redes sociais são exemplos de como estas pressões externas podem se sobrepor psiquicamente aos desejos do indivíduo, funcionando como a voz balizadora de valores de consumo, beleza, riqueza e conhecimento, excludentes no sistema do capitalismo. As perguntas de Freud estão mais vivas do que nunca: Quais os distúrbios possíveis do narcisismo? Quais as reações de proteção a estes distúrbios? ao que se sujeita ao se proteger? Assuntos para uma próxima reflexão.
REFERÊNCIAS
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Vídeos
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