
“Pouco não me serve, Médio não me satisfaz, Metades nunca foram meu forte”
Clarice Lispector
Este texto traz um brevíssimo resumo da obra máxima de Sigmund Freud, no que concerne à herança arcaica presente no inconsciente e manifestada no sonho, à formação do recalque, da resistência, da fixação e à importância do pensamento e do afeto para a clínica, como proposto por Freud.
Após a apresentação de mais de dois terços de seus estudos, em suas mais de 750 páginas, Freud propõe um ponto de vista: o sonho poderia ser descrito como um substituto de uma cena infantil, modificada ao ser transferida para uma experiência recente (FREUD, 1900[2001], p. 526). Em seguida, ele concorda com Nietzsche ao afirmar que “acha-se em ação alguma relíquia primitiva da humanidade que agora já mal podemos alcançar por via direta”, propondo que o sonho possa nos levar a um “conhecimento da herança arcaica do homem” (FREUD, 1900[2001], p. 528), tema significativo para minhas pesquisas pessoais.
Assim, os sonhos devem ser encarados como os protótipos normais de todas as estruturas psicopatológicas. Quem compreender os sonhos pode também apreender o mecanismo psíquico das neuroses e psicoses (FREUD, 1913[1996], p. 181).
Com relação ao recalque, pedra angular da teoria psicanalítica, em seu livro A Repressão (1915), Freud diz que a repressão, em essência, consiste em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância. Embora esta seja a frase-chave, ele propõe uma suposição complementar, baseada na ideia de que há uma organização mental a ser alcançada para que a repressão ocorra. Antes dessa fase, os impulsos (instintos/pulsões) estariam sujeitos a reversão em seu oposto ou retorno em direção ao próprio eu (self) do sujeito. Neste artigo curto, Freud propõe que exista uma repressão primeva, que consiste em negar entrada no consciente do representante psíquico ideacional da pulsão. Isto estabelece a fixação, e o representante permanece inalterado, enquanto a pulsão continua ligada a ele.
A segunda fase da repressão, a “repressão propriamente dita” (p. 153), afeta os derivados mentais do representante reprimido, ou seja, os pensamentos e suas derivações. Uma cadeia de pensamentos que se conecta com outras será reprimida de forma semelhante às primeiras (Vorstellung), e se fixam. Temos aqui o movimento tanto de manter distância do consciente quanto de atração do reprimido. Longe do processo consciente, todas as cadeias que se conectam, atraem e reconectam, podem formar-se, desfazer-se e conectar-se de diferentes maneiras, como se crescessem livremente no inconsciente, assumindo formas extremas de expressão que podem ser pouco reconhecíveis pelo paciente quando traduzidas, dadas as crescentes fantasias. Quanto mais distantes do conteúdo primevo, maiores as chances dessas representações sofrerem distorções e alcançarem o consciente.
Da mesma maneira, o sintoma, derivado do reprimido, alcança o consciente quando se manifesta. A força para que o reprimido atinja o consciente está na catexia formada no inconsciente. Freud repete esse conceito de maneiras diferentes ao longo do texto. A singularidade do processo reside na variação da intensidade necessária para vencer a resistência oferecida; cada objeto (e seus ideais) e sua mínima alteração podem mudar completamente o resultado. Até esse ponto dos estudos de Freud, o chiste havia sido a forma estudada para o alívio dessa tensão, transformando o desprazer em prazer. São enumeradas como características da repressão ser individual e móvel.
A repressão exige dispêndio de energia para se manter, e, se essa força fraqueja, um novo ato de repressão seria necessário. O contrário, eliminá-la, gera uma poupança de energia. Com a mobilidade da repressão no estado de sono, temos a formação dos sonhos. Onde começa o conflito? Na quantidade. O fator quantitativo — o volume, a quantidade de ideias e pensamentos criados, as fantasias, e o empenho no inconsciente para formar cadeias e distorções para manifestar-se — será decisivo para o aumento da catexia energética, o que gera a necessidade de uma nova repressão. Já a diminuição dessa catexia atua para que os representantes permaneçam remotos no inconsciente ou distorcidos. Se eu enfraqueço o que é horrível, uma tendência repressiva, isso se torna um substituto da repressão. A pulsão (instinto) é quem fornece a quota de energia (libido ou interesse) para a manutenção do representante instintual catexizado no inconsciente.
Outro elemento representativo da pulsão, chamado “cota de afeto” (affektbetrag), também sofre repressão de formas diferentes, em relação à ideia. Ou seja, há dois representantes que terão diferentes destinos e expressões, portanto, diferentes acompanhamentos: o Pensamento e o Afeto. Neste momento, os estudos apontavam que as energias psíquicas dos instintos são transformadas em afetos (o que colore: raiva, tristeza, angústia, muitas possibilidades). Principalmente em ansiedade, isso tomará mais a atenção da clínica, pois representa a parte da repressão que falhou.
Quando a repressão obtém sucesso? Quando deixa transparecer a vicissitude — os aspectos desagradáveis do afeto. Por exemplo: se eu grito, choro, esperneio, a repressão falhou. Se eu falo o que penso, a repressão falhou. Se eu sinto ansiedade, a repressão falhou. Se tenho um sintoma, a repressão falhou. Quando ela é bem-sucedida, escapa ao nosso exame.